15.6.08

 

Interlúdio Musical

Fora do bulício da capital, ouço, na Antena 2, da RDP, a música avassaladora de Wagner, no seu magnífico Tannhäuser.
Dizem que Hitler era um apaixonado da música de Wagner. Se o era, teria bom gosto musical, coisa quase herética sequer de admitir, quanto mais de proferir, já que, para o senso comum, de Hitler só poderia promanar o mal, o ódio e não quaisquer outros sentimentos normais de um qualquer comum mortal.

Acrescentam-se, nestes casos, justificações apropriadas. Talvez esse gosto se devesse à presença de algumas características da música de Wagner, de inspiração heróica haurida na mitologia germânica; talvez residisse aí, nessa busca da força mitológica dos heróis germânicos que Wagner empreendia nas suas pesquisas para criações musicais, a razão da enorme empatia de Hitler com a música de Wagner, sem dúvida em sintonia com os seus mais fundos ímpetos guerreiros, desde cedo na vida alimentados à espera de oportunidade azada para se desenvolverem.

Seja como for, declare-se que Wagner e o seu génio musical estão antes de Hitler e permanecerão para lá dele.

Wagner continuará, certamente por longo tempo, a contar com inúmeros ouvintes em todos os cantos do mundo, onde quer que floresça uma ponta de apreço da cultura ou da civilização, no caso, a ocidental, nascida aqui na Europa, a tal que parece hoje envergonhar-se de si mesma, tão concentrados se encontram no presente os Europeus e seus descendentes no Novo Mundo, nos aspectos negativos que ela também inegavelmente gerou, no seu devir histórico.

É curioso como certas figuras ou as suas produções artísticas ficam na História marcadas por determinadas ligações malditas que condicionam fortemente o julgamento que delas se fará, pelo menos durante algumas gerações, traumatizadas por acontecimentos nefastos, em períodos em que essas figuras ou as suas criações artísticas exerceram fascínio significativo nas sociedades por elas influenciadas.

Assim sucedeu com Wagner (1813-1833), Nietzche (1844-1900), Heidegger (1889-1976) ou, no campo da Ciência, com a figura controversa de Philip Lenard (1862-1947), contemplado com o Nobel da Física, em 1905.

No caso de Wagner, porém, será porventura onde o grau de injustiça é maior, pelas conotações indevidas que se estabelecem entre ele e o Nazismo, sendo ele inteiramente alheio a tal fenómeno, visto ter falecido em 1883, muito antes, portanto, mesmo do advento da tragédia do Nacional-Socialismo.

O próprio Adolfo Hitler só veria a luz do dia, em Abril de 1889. No entanto, estas relações, uma vez admitidas por esse mundo fora, torna-se depois difícil de as desfazer, mesmo expondo factos insofismáveis. Aliás, em todas as épocas, a tarefa de destruição de mitos foi sempre como se sabe de enorme dificuldade.

Até o nosso Pessoa, na Mensagem, se lhe refere, quando proclama que « O Mito é o nada, que é tudo…» e disto entendia Pessoa que auscultava enigmas, efígies e astros, tendo sido capaz de estabelecer o horóscopo de Portugal, entidade que bastante ocupou aquele seu cérebro eminentemente, incessantemente pensante, como raros que terão acostado por esta extrema europeia.

Wagner, pois, merece que o ouçamos com toda a atenção. Já não direi que todos reúnam o estofo ou a perseverança musicais para as suas óperas trabalhosas e intermináveis, como a série – tetralogia – do Anel de Niebelungo, ainda que fosse com as explicações minuciosas e judiciosas do saudoso João de Freitas Branco, invulgar talento de divulgador e comentador, em tudo quanto se relacionasse com a Música.

Haja em vista também a sua tradução de uma obra de Matemática da colecção de manuais universitários da Gulbenkian, muito usada em tempos pelos estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa e o do Instituto Superior Técnico, denominada Cálculo Diferencial e Integral, em três volumes, de autor alemão.

João de Freitas Branco, que era também licenciado em Matemática e excelente conhecedor das línguas alemã e portuguesa, houve-se a preceito desse notável trabalho de tradução, como só são capazes os probos competentes nos idiomas envolvidos na tradução, bem como da matéria de que esta consta.

No presente, só os Maestros José Atalaia, António Vitorino de Almeida ou Álvaro Cassuto se lhe poderão comparar, mas nenhum se avantajará nos méritos a esse predestinado João de Freitas Branco, nascido numa família de ouro da música erudita portuguesa.

Seu pai, Luís de Freitas Branco, compositor emérito, que poderia ombrear com qualquer outro músico de prestígio internacional seu coevo, e seu tio, Pedro de Freitas Branco, exímio Maestro, notável condutor de Orquestra, considerado o melhor Maestro do seu tempo para dirigir peças de Ravel, tiraram-nos da penumbra cultural em que nos situávamos e nos continuamos a situar, apesar do grande incremento havido entre nós no campo da Música, nos últimos trinta anos, há que reconhecê-lo.

Será talvez aqui que o Ensino não terá registado retrocesso, na era democrática post-abrilina, confirmando o conhecido adágio de não haver regra sem excepção.

Valeria a pena averiguar a razão deste inesperado sucesso, na exigente disciplina do saber que é a Música, quando todo o resto do Ensino mergulhou num imenso naufrágio, de que haveremos colectivamente de pagar elevado preço, num futuro cada vez mais próximo.

Na música dita erudita ou clássica, para usar expressões convencionais, a existência de um público apreciador pressupõe algum investimento cultural em matérias acessórias, ao mesmo tempo que se necessita de uma oferta ampla de qualidade em concertos ao vivo, gratuitos ou a preços acessíveis, para atrair e assim criar o hábito de conviver com este tipo de música, que requer audição atenta, propósito adequado, para dela se fruir completamente.

A Rádio pode desempenhar aqui um papel relevantíssimo, como tem acontecido com a Programação da Antena 2, levando ao conhecimento de vastas camadas da população, peças e intérpretes fundamentais, de contrário só familiares de um escasso núcleo de iniciados e profissionais.

A Rádio pública pode e deve chamar a si esse objectivo, como tem feito ao longo da sua existência, sempre animada de um intento didáctico, para fornecer aos ouvintes os elementos indispensáveis à compreensão das peças que vai passando.

Infelizmente, a tendência de introduzir outros tipos de música neste canal, bem como faixas extensas de programas falados, conversados, distorce a sua função, que deveria ser primacialmente a de divulgar e fomentar o gosto da música clássica. Para as outras, há inúmeros canais que já as transmitem em doses superabundantes. Eis aqui uma matéria para reflexão dos responsáveis da RDP.

Outra preocupação que a Antena 2 deveria continuar a observar é a da completa identificação das peças e dos intérpretes antes e no fim da sua apresentação, para que todos os ouvintes possam reter e identificar aquilo que escutaram.

Alguém que sintonize a estação a meio de uma peça, só no final da mesma poderá captar a sua identificação, se acaso esta for dada em repetição, como, julgo, continuará a ser de regra.

Em particular, devo à RDP, Antena 2, inúmeras horas de boa companhia, desde os tempos de estudante, no Secundário e depois na Universidade, durante as longas jornadas de estudo e de preparação para exames. Este hábito criou raízes e subsiste hoje, apesar da concorrência de muitos outros meios de diversão e de lazer.

Com o hábito de escutar música clássica, vai-se educando ou formando um gosto, que perdura, no tempo, assegurando público para um reportório, afortunadamente imenso, deixado por gerações e gerações de músicos de grande inspiração e intérpretes de enorme talento.

Além disso, este tipo de música, uma vez entrada nos hábitos de audição dos jovens, sobretudo, estimula a criação de hábitos de atenção concentrada, prolongada no tempo, atitude muito útil em qualquer actividade cultural ou espiritual que por eles venha ulteriormente a ser desenvolvida.

Creio errada a ideia de que os jovens e o público em geral não apreciem música clássica. O que sucede é que, com base neste preconceito, se impede a oportunidade de divulgar este tipo de música e, sem isso, a grande maioria das pessoas, que não recebeu educação musical formal, séria, na Escola, acaba por não ser atraída e despertada para o vasto prazer espiritual, se não também sensorial, que dela pode retirar. Isto, que tem sido dito por imensa gente, vezes sem conta, permanece, todavia, pouco atendido.

Haveria que repetir a experiência dos Concertos Promenade do exuberante Leonard Bernstein, que a Televisão Portuguesa chegou a transmitir, com certa regularidade, antes do dilúvio de futilidade e grosseria que dela tomou conta, a pretexto da concorrência com o lixo dos canais privados, que, por sua vez, alegam apenas corresponder ao gosto maioritário do Público.

Entre nós, modernamente, os Maestros José Atalaia e António Vitorino de Almeida poderiam muito bem desempenhar papel idêntico ao de Bernstein, com competência e a contento de todos, como muita gente, que já assistiu a essas sessões orientadas por aqueles Maestros portugueses, poderá decerto comprovar.

Bastaria um pouco mais de ousadia cultural naquela casa transformada em antro de leviandades para que tal voltasse a ser possível e talvez com a descoberta de que tais iniciativas, longe de afastar, haveriam de atrair públicos impensados, quem sabe se destronando imaginados campeões de audiências, estribados na vulgaridade, na alarvidade mais ordinária ou na futilidade mais insignificante.

Mas, para isso, seria mister haver por lá alguém disposto a arrostar com supostos papas televisivos, especialistas na arte da subjugação de vastos auditórios, dispondo de cobertura superior para agir contra-a-corrente do mau gosto erguido em padrão de modernidade.

Quanto tempo teremos ainda de esperar para que tal possa acontecer ? Em que reino democrático tal será possível ?

Nem na múltipla oferta do cabo se consegue fugir da enxurrada de frivolidade do presente mau gosto, nacional e internacional, reconheça-se por mera verificação !

E, desprendidos de descabidos preconceitos, voltemos a dar atenção ao soberbo «Tannhäuser», ao magnífico «Tristão e Isolda» do excelso Wagner, a despeito de todos os déspotas enlouquecidos, que de tal possam também gostar ou haver gostado.

AV_Óbidos_14 de Junho de 2008

Comments:
Caro amigo

Tenho andado arredado da blogosfera. Primeiro, porque me ausentei para parte incerta, a fim de me banhar nas cálidas ondas das costas de Vera Cruz. Depois, porque quero dedicar mais tempo à escrita mais séria.
Tem razão no que diz e em especial nas referências que tocam o compositor alemão que, depois de morto, inspirava o ditador nazi. De qualquer forma, toda a ruindade desse "eminemte sábio investigador" (que foi um pintor medíocre),não o impediu de ser o autor do esboço que acabou por definir as linhas do famoso "Carocha" da VW.
Teias que o diabo tece...
 
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